A inteligência artificial, a pergunta e o conhecimento: por que a ferramenta não dispensa quem sabe usá-la
- há 14 horas
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Marco Tulio Elias Alves
1. A ferramenta e o seu lugar
Tenho para mim que já passamos do momento em que se discutia se a inteligência artificial entraria ou não em nossas vidas. Ela entrou. E entrou de tal forma que começa a parecer artificial, isto sim, imaginar certas atividades sem a sua presença. Pesquisa, redação, organização de dados, tradução, comparação de documentos, planejamento, revisão de textos, tratamento de informações, apoio administrativo: em tudo isso, e em muito mais, a inteligência artificial já ocupa espaço.
Não vejo nisso um mal. Ao contrário. Considero a inteligência artificial uma das ferramentas mais interessantes que chegaram ao trabalho intelectual nos últimos anos. Ela permite aproximação rápida com assuntos que desconhecemos, organiza aquilo que levaríamos horas para ordenar e, sobretudo, amplia a capacidade de quem já sabe fazer alguma coisa. É aí que me parece estar o ponto.
A inteligência artificial não torna o conhecimento inútil. Faz o contrário: valoriza-o.
Quanto mais sei sobre a matéria que pretendo discutir com a máquina, mais consigo extrair dela. Quanto melhor conheço Direito, História, Contabilidade, administração ou qualquer outro campo, melhores são as perguntas que consigo formular, os erros que consigo perceber, as contradições que consigo apontar e os caminhos que consigo sugerir. O conhecimento anterior não desaparece diante da tecnologia. Passa a funcionar como instrumento de comando e, depois, de conferência.
2. A pergunta
É costume dizer que a inteligência artificial oferece respostas. A afirmação é verdadeira, mas incompleta. Antes de oferecer respostas, ela depende de perguntas. E a qualidade destas interfere decisivamente na qualidade daquelas.
Não me refiro apenas ao chamado prompt, expressão que se tornou comum para designar a instrução fornecida ao sistema. O problema é anterior. Para construir bom prompt, é preciso saber o que se quer perguntar. E, muitas vezes, saber o que perguntar exige algum conhecimento sobre aquilo que se procura compreender.
Posso perguntar a uma inteligência artificial: “Quem tem razão neste processo?”. A pergunta parece objetiva; juridicamente, é quase vazia. Razão em quê? Quanto aos fatos? Quanto à prova? Quanto à incidência da norma? Quanto ao ônus probatório? Há prescrição? Há decadência? Existe questão processual anterior ao mérito? A pretensão foi corretamente formulada? Houve impugnação específica? A prova é admissível? A jurisprudência utilizada é atual? A situação admite distinção?
Uma pergunta aparentemente simples pode esconder dez ou vinte outras.
Se eu conheço a matéria, decomponho o problema. Se não a conheço, posso aceitar como completa uma resposta que nasceu de uma pergunta incompleta.
A diferença é considerável.
3. O prompt e o conhecimento
Houve tempo em que se imaginou que aprender a escrever bons prompts seria uma espécie de nova profissão universal. Não nego a utilidade da técnica. Saber estabelecer contexto, delimitar tarefa, fornecer documentos, definir critérios, pedir comparação e exigir conferência melhora muito os resultados.
Mas não confundamos técnica de comunicação com domínio do objeto.
Um excelente comando pode organizar a resposta. Não pode fornecer ao usuário, por si só, o conhecimento necessário para saber se aquela resposta está correta.
Posso pedir à inteligência artificial que redija uma petição com linguagem formal, tópicos bem separados, indicação de fundamentos e pedidos finais. Ela provavelmente produzirá um texto visualmente convincente. Outra coisa é saber se a tese jurídica escolhida é adequada, se o pedido é possível, se existe interesse processual, se o precedente citado realmente se aplica ao caso, se determinado fato deve ser alegado ou evitado, ou se a estratégia adotada cria problema que somente aparecerá algumas fases depois.
A forma pode estar correta e o raciocínio, errado.
Essa distinção, que sempre existiu no trabalho intelectual, tornou-se ainda mais importante com a inteligência artificial, porque a máquina é capaz de apresentar o erro com excelente redação.
4. A resposta convincente
Talvez esteja aí um dos maiores riscos.
Estamos acostumados a desconfiar de textos mal escritos, contraditórios ou evidentemente confusos. A inteligência artificial alterou essa referência. Uma resposta pode estar errada e, ainda assim, apresentar ótima sintaxe, boa organização, aparente segurança e sequência lógica bastante persuasiva.
O problema não é novo. Livros erram. Artigos erram. Advogados erram. Juízes erram. Professores erram. A diferença está na velocidade, na quantidade e na aparência.
A inteligência artificial pode produzir, em segundos, uma explicação que exigiria horas de escrita humana. Se a premissa estiver errada, também poderá produzir em segundos várias páginas desenvolvendo elegantemente o erro inicial.
Daí a importância daquele que pergunta.
Quando conheço o assunto, a resposta da máquina não me chega como ordem. Chega como material de trabalho. Posso recusá-la, modificá-la, testar outra hipótese, pedir fonte, conferir legislação, procurar jurisprudência, alterar a pergunta ou simplesmente concluir que a resposta não serve.
Quando não conheço o assunto, desaparece parte dessa capacidade de resistência.
5. O leigo e o profissional
Não quero com isso sustentar que a inteligência artificial seja destinada apenas aos especialistas. Seria absurdo. Uma de suas maiores qualidades está justamente em permitir que pessoas comuns compreendam melhor assuntos antes restritos a determinados círculos profissionais.
O cliente chega hoje mais informado. Pesquisa conceitos, pergunta sobre procedimentos, procura decisões, compara possibilidades. Esse fenômeno já é percebido na advocacia, inclusive com clientes que realizam consulta prévia por IA antes de procurar o advogado. A própria discussão recente no meio jurídico tem destacado, de um lado, a utilidade dessas ferramentas para pesquisa, redação e organização e, de outro, a permanência da responsabilidade técnica do profissional.
Isso é positivo.
Prefiro conversar com alguém que compreende minimamente o problema a tratar o conhecimento jurídico como segredo profissional. A informação ajuda o cliente a fazer perguntas melhores, compreender riscos e participar das decisões.
Outra coisa, completamente diferente, é imaginar que o acesso à informação suprimiu a necessidade de interpretação profissional.
Uma inteligência artificial pode informar que determinada tese existe. O advogado terá de saber se ela serve.
Pode indicar que certa medida judicial é possível. O advogado terá de saber se convém.
Pode apresentar duas interpretações conflitantes. Alguém terá de decidir qual delas possui melhor fundamento, qual encontra apoio nos tribunais competentes, qual corresponde aos fatos efetivamente provados e qual risco será assumido ao adotá-la.
E essa decisão não é um problema de redação de prompt. É problema de conhecimento, experiência e responsabilidade.
6. A experiência no escritório
É no trabalho cotidiano que percebo com maior clareza essa diferença.
No escritório, a inteligência artificial pode ser extraordinária para organizar documentos, estruturar informações, revisar textos, comparar versões, melhorar a apresentação de uma petição, resumir material extenso, preparar quadros, auxiliar pesquisas iniciais e apoiar atividades administrativas.
Também pode ajudar a localizar perguntas que ainda não foram respondidas.
Diante de grande quantidade de documentos, por exemplo, posso pedir que sejam separados por natureza, data, parte, assunto ou relevância. Posso utilizar a ferramenta para criar uma linha do tempo provisória, identificar repetições, conferir diferenças entre versões de contratos, organizar informações recebidas de clientes ou transformar material desordenado em estrutura útil para análise.
Isso representa ganho real de eficiência.
O que antes consumia boa parte do tempo destinado à preparação pode ser feito mais rapidamente. E o tempo economizado pode ser transferido para aquilo que considero propriamente profissional: compreender o caso, conversar com o cliente, estudar alternativas, decidir estratégia, antecipar objeções e revisar o resultado.
A máquina não elimina o trabalho. Muda a distribuição do trabalho.
E, quando bem empregada, permite que o advogado gaste menos energia com certas atividades mecânicas e mais com aquilo em que seu conhecimento produz maior valor.
7. Pesquisa e conferência
Há outro ponto que considero necessário separar.
Pesquisar não é decidir.
A inteligência artificial pode ajudar a encontrar normas, julgados, conceitos e referências. Pode sugerir palavras-chave, elaborar combinações de pesquisa, comparar posições doutrinárias e até indicar problemas que não haviam sido percebidos inicialmente.
Nada disso torna dispensável a conferência.
No Direito, uma palavra pode mudar tudo. Um precedente pode ter sido superado. Uma decisão pode tratar de situação semelhante, mas juridicamente distinta. Uma lei pode ter recebido nova redação. Uma regra federal pode não resolver questão estadual. Uma decisão proferida em matéria tributária pode conter raciocínio aproveitável em questão civil, mas essa transposição exige justificativa.
A máquina aproxima materiais. O jurista estabelece relações entre eles.
Se eu delegasse à inteligência artificial não somente a busca, mas também a escolha final do fundamento e a avaliação de sua adequação, estaria transferindo justamente a parte do trabalho que não deveria transferir.
O mesmo vale para outras profissões.
O instrumento pode auxiliar o médico, o contador, o engenheiro, o pesquisador ou o professor. Mas a qualidade do resultado continua vinculada, em alguma medida, à capacidade de quem formula o problema, examina a resposta e decide o que fazer com ela.
8. O paradoxo da facilidade
Quanto mais fácil se torna obter uma resposta, mais importante se torna saber avaliá-la.
Esse é, para mim, um dos paradoxos do nosso tempo.
Há alguns anos, encontrar determinada informação podia consumir horas. Hoje posso obtê-la em segundos. Mas justamente porque a resposta chega tão facilmente, cresce a tentação de abandonar a verificação.
É possível que duas pessoas utilizem exatamente o mesmo sistema de inteligência artificial e obtenham resultados muito diferentes.
Uma delas pergunta genericamente, aceita a primeira resposta e a utiliza.
A outra fornece contexto, apresenta documentos, estabelece critérios, divide o problema em partes, questiona contradições, exige indicação das fontes, compara alternativas e, ao final, confere aquilo que recebeu.
Não foi a ferramenta que mudou. Mudou o usuário.
Daí eu não considerar adequado falar apenas em “saber usar inteligência artificial”, como se isso se resumisse à aprendizagem de comandos. Saber usar a ferramenta inclui saber discordar dela.
Inclui perceber quando a resposta não resolveu a pergunta.
Inclui reconhecer quando a própria pergunta foi mal formulada.
Inclui saber parar.
9. A autoridade da resposta
Há ainda um equívoco frequente: imaginar que uma resposta extensa ou segura possui autoridade pelo simples fato de ter sido produzida por sistema avançado.
Não possui.
A inteligência artificial não transforma hipótese em fato, argumento em lei, opinião em jurisprudência ou possibilidade em certeza.
O texto pode parecer definitivo; não é.
No meu campo profissional, não poderia justificar uma decisão dizendo que “a inteligência artificial respondeu assim”. A responsabilidade continuaria minha. Se assino uma petição, faço minha a escolha do argumento. Se aconselho um cliente, assumo a responsabilidade pelo conselho. Se seleciono um precedente, respondo por sua pertinência.
Não há prompt que transfira essa responsabilidade.
E talvez seja exatamente por isso que a inteligência artificial possa ser tão boa ferramenta para profissionais. Ela não precisa ocupar o lugar daquele que decide. Pode ocupar, com enorme vantagem, o lugar daquilo que auxilia quem decide.
10. O que muda
Não creio, portanto, que a grande transformação produzida pela inteligência artificial esteja em tornar dispensável o conhecimento humano. Vejo quase o oposto.
A ferramenta aumenta a distância entre quem apenas recebe respostas e quem sabe trabalhar com elas.
Quem conhece o assunto formula perguntas melhores. Quem formula perguntas melhores fornece melhor contexto. Quem fornece melhor contexto recebe material mais útil. Quem conhece a matéria consegue avaliar esse material. E quem consegue avaliá-lo pode corrigir a ferramenta, aprofundar a pesquisa e chegar mais rapidamente a uma solução melhor.
Forma-se, assim, uma espécie de círculo virtuoso entre conhecimento humano e capacidade computacional.
O risco está no círculo contrário.
Pouco conhecimento produz pergunta imprecisa. A pergunta imprecisa produz resposta genérica ou errada. A falta de conhecimento impede que o usuário reconheça o problema. A resposta passa a ser aceita porque parece convincente. E a facilidade inicial, que deveria ajudar, termina ampliando o erro.
Não é argumento contra a inteligência artificial.
É argumento a favor do conhecimento.
11. Conclusão
Uso inteligência artificial e considero difícil imaginar que deixaremos de usá-la. Não vejo razão para nostalgia de tarefas repetitivas, pesquisas lentas ou processos administrativos que podem ser executados de maneira mais eficiente.
Também não vejo vantagem em transformar a tecnologia em inimiga de profissões que ela pode melhorar.
A inteligência artificial ajuda a compreender o desconhecido e aumenta nossa eficiência naquilo que já sabemos fazer. Pode escrever conosco, pesquisar conosco, organizar conosco e, muitas vezes, mostrar caminhos que ainda não havíamos percebido.
Mas há uma diferença entre receber uma resposta e compreender uma resposta.
Há outra entre produzir um texto e saber se esse texto está correto.
E há uma terceira, talvez a mais importante, entre encontrar uma possibilidade e assumir responsabilidade por uma decisão.
Por isso, quanto mais uso inteligência artificial, menos acredito que o conhecimento tenha perdido importância.
A máquina pode responder.
Ainda precisamos saber perguntar.
E, depois da resposta, precisamos saber se devemos acreditar nela.
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